O prestigiado Galeno de Pérgamo

Texto de autoria de Pablo Emmanuel, do Terceiro Período de Medicina, UNIFACISA.

Busco através deste estudo sintetizar uma série de bibliografias sobre, em minha concepção, o médico de maior prestígio da história, Galeno de Pérgamo, afinal as suas teorias só foram contestadas depois de mais de dez séculos. Passaremos, então, a analisar um pouco da vida e da obra desse que era conhecido por ser um gênio, arrogante e brilhante.

Em algumas literaturas chamado de Cláudio Galeno ou Élio Galeno, Galeno de Pérgamo, de origem grega, nascido por volta de 130 d.C., na cidade de Pérgamo, Ásia Menor (hoje Turquia), é considerado o maior comentador do Corpo Hipocrático, e o seu enorme trabalho de exegese foi fundamental para a transmissão e a difusão do legado hipocrático no mundo ocidental e oriental.

Galeno nasceu em um grande centro médico de culto e cura, onde estava sendo construído um templo de Asclépio, talvez por seu próprio pai, o famoso arquiteto da época, Nikon. Segundo os relatos históricos, Nikon havia exercido uma forte influência moral e intelectual sobre o filho, iniciando-lhe nos estudos de matemática e geometria e, aos 14 anos, Galeno já estudava filosofia com os professores estóicos e platônicos.

Aos 16 anos, por decisão paterna, Galeno passou a estudar medicina com um médico que pertencia ao grupo de Costúnio Rufo, responsável pela construção do templo de Asclépio. De 147 a 151, estudou anatomia com Satyro, respeitado anatomista da época. Após a morte de seu pai, durante os anos 151 e 152, seguiu para Esmirna, onde estudou medicina com Pelops e filosofia com Albino.

É dessa época o seu primeiro escrito: um tratado composto por três livros sobre o movimento do pulmão e do tórax. De 152 a 157, seguiu para Corinto e Alexandria, capital científica do mundo helenístico e latino, onde deu continuidade ao aprendizado médico com importantes anatomistas, entre eles Heracleiano e vários comentadores do CH. Na obra Sobre a ordem dos meus próprios livros, Galeno (§3, passagens 57-8), cita os comentadores de Hipócrates anteriores a si próprio, entre os quais muitos de seus antigos professores, contra os quais ele invariavelmente tem objeções (cf. Singer, 1997, p. 26-7): Pelops, Numesiano, Sabino, Estratônico, Rufo de Éfeso, Quinto, Lyco, Satyro e Aeficiano. Nessa época, escreveu tratados de fisiologia e anatomia, como a primeira edição dos Procedimentos anatômicos e deu início a sua obra Demonstração lógica.

Galeno retornou a Pérgamo aos 29 anos, em 157, e entre os anos 158-161, assumiu o prestigioso posto de médico de gladiadores. Nos dois anos seguintes, seguiu para Roma, onde foi médico do imperador Marco Aurélio. De 163 a 168, voltou a Pérgamo para cumprir o serviço militar, retornando novamente a Roma em 169, convocado para acompanhar Marco Aurélio e suas tropas nas campanhas da Germânia. De 169 até 175, foi médico de Comodo, filho de Marco Aurélio, e, de 175 até 192, exerceu o prestigioso posto de médico da corte imperial romana. Em 192, o grande incêndio de Roma destruiu a maior parte de seus manuscritos, obrigando Galeno a retirar-se para Pérgamo, onde passou a reescrever os seus textos perdidos.

Os estudos e teorias constituídos por ele prevaleceram nas concepções médicas vigentes no Ocidente por mais de um milênio, tal a importância e a extensão de suas descobertas. Ele baseava suas investigações no exame minucioso de macacos, pois a dissecação de seres humanos era então proibida.

Os resultados atingidos por Galeno foram imbatíveis até as conclusões do médico belga Andréas Vesalius, divulgadas em 1543; e seus relatos sobre o mecanismo de funcionamento do coração, das artérias e veias, dominaram o cenário da Medicina até o momento em que o britânico William Harvey determinou, em 1628, que o sistema cardíaco atua como se o coração estivesse bombeando o sangue. Algumas das concepções de Galeno ainda prevaleciam no século XIX.

Atribuem, ainda, a Andréas Vesálius a seguinte frase: “O infalível Galeno enganou-se algumas vezes, pois dissecou macacos”.

No entanto, haverei de criticar a postura do magnífico Vesálius, haja vista que em sua época a dissecação de cadáveres deixou de ser um sacrilégio, ao revés, agora era tido como de fundamental importância o estudo do corpo humano, para reconhecer sua beleza e sua perfeição. Falamos então do Renascimento, época de grandes artistas, filósofos, anatomistas, inventores, a exemplo de Leonardo da Vinci, que no auge de sua genialidade, não teve coragem de contestar Galeno, aceitando tudo o que Mondino (Médico da Universidade de Bolonha), este por sua vez, queria comprovar nos cadáveres os legados de Galeno.

Outro grande nome do Renascimento é Borengario de Carpi, anatomista, médico, professor da Universidade de Bolonha, que mesmo percebendo os erros de Galeno, não declara ter encontrado. Apenas em 1521, publica comentários sobre anatomia de Mondino, afirmando que Galeno jamais vira a rede mirabilis e que não havia encontrado o filtro/crivo renal.

Galeno, que também era filosofo, defendeu o ensino de filosofia para médicos por três razões: (i) o doutor precisa ser treinado no método científico, para poder argumentar corretamente (mas nem tanto para saber avaliar evidência); (ii) o médico precisa estudar a natureza, ou como diríamos hoje, precisa conhecer teoria biológica; (iii) o doutor deve aprender a desprezar o dinheiro! A fisiologia de Galeno partia da distinção tradicional entre quatro elementos (terra, água, ar, fogo) e quatro qualidades primárias (quente, frio, seco, úmido). Seguindo Platão, identificou três faculdades da alma: o racional (ligado ao cérebro, centro do sistema nervoso), o animal ou espiritual (ligado ao coração, a fonte das artérias) e o nutritivo (ligado ao fígado, fonte das veias). Esse esquema fisiológico seria herdado pela medicina medieval e árabe.

Destacou que na nutrição o alimento é inicialmente emulsionado em um “quilo”, para depois ser digerido (“pepsis”) e finalmente absorvido. Segundo Galeno, o fígado geraria o sangue a partir da alimentação proveniente do estômago e dos intestinos, e o sangue nutriria o resto do corpo. Do fígado, o sangue iria pela veia cava para o ventrículo direito do coração, de lá nutriria os pulmões e iria para o resto do corpo, impedido de retornar ao coração por causa de válvulas. Galeno supôs que a função da respiração era o de esfriar o sangue e o coração, sendo que o ar iria até o coração através veia pulmonar.

Seu erro mais famoso foi a conclusão de que no coração o sangue pode passar diretamente do ventrículo direito para o esquerdo, através da parede muscular que separa estas duas cavidades. Chegou a esta conclusão por perceber que a válvula tricúspide era maior do que válvula pulmonar, e por imaginar que capilares estariam presentes no septo interventricular. Assim, o sangue acabaria refluindo pela válvula mitral. Em seu raciocínio, utilizou também o princípio de que a natureza não faz nada sem um motivo.

Quando retornou a Roma, em 169, permanecendo até 192 d.C., dos 40 aos 65 anos, Galeno produziu os seus mais importantes tratados e vários comentários ao CH. Entre 169 e 175, escreveu: Os elementos segundo Hipócrates e PlatãoMisturasSobre as faculdades naturaisSpermataA função da respiração; os livros restantes (ii-xvii) do Da utilidade das partes do corpoSobre a melhor constituição do nosso corpoSobre a boa condição; a maior parte dos trabalhos sobre o pulso; os livros restantes (vii-ix) do Sobre as opiniões de Hipócrates e PlatãoDieta de emagrecimento; a primeira parte da sua principal obra farmacológica Misturas e a propriedade dos medicamentos simples; a obra terapêutica Método de cura, composta por 14 livros (Megatechne ou Methodus medendi); Questões de saúde; os trabalhos sobre classificação e o diagnóstico das doenças e prática clínica Para Glauco, sobre o método de curaPara Thrasyboulos e o Exercício com uma pequena bola; e boa parte dos comentários hipocráticos.

Em 176, Galeno atinge o auge de sua fama, sendo apoiado pela elite romana e pelo imperador Marco Aurélio. Nessa época, publica o Prognóstico. De 176 a 180, Galeno escreve vários comentários a Hipócrates. De 180 a 192, escreve a maior parte da sua obra sobre dieta e regime de vida: Sobre a propriedade dos alimentos; o último livro das Questões de saúdeSobre a ordem dos meus livros; e os seus últimos comentários aos textos hipocráticos Sobre a natureza do homem Ares, águas e lugares.

Entre 193 e as datas prováveis de sua morte, por volta de 210 d.C., Galeno escreveu A dependência da alma ao corpoA formação do embriãoSobre a arte médica; trabalhos de caráter clínico e farmacológico, como os últimos livros do Método de cura e a obra Misturas e a propriedade dos medicamentos simples; dois trabalhos de farmacologia; e o Sobre meus próprios livros. É neste último que Galeno descreve os seus 25 comentários aos tratados hipocráticos. Na apresentação, lembra que tais escritos tinham sido originalmente anotações feitas como forma de exercício para uso e consulta particular (Galeno, 1997, p. 15). Tais anotações foram paulatinamente crescendo e acabaram organizadas por assuntos, percorreram a obra e o sistema médico de Hipócrates, esclarecendo as passagens difíceis e apresentando as suas principais conclusões. Embora critique os comentadores anteriores, apresentando “os seus erros” de interpretação, Smith (2002) afirma que Galeno muitas vezes os criticou “de memória” ou “por ouvir dizer”. Nesse conjunto de escritos encontram-se os seguintes comentários aos tratados hipocráticos: Sobre os dias críticosSobre as crises; Sobre a apnéia; Método de cura (14 livros); Aforismos (7 livros); Fraturas (3 livros); Articulações (4 livros); Prognóstico (3 livros); Do regime nas doenças agudas (5 livros); Sobre as feridas; Sobre as feridas da cabeça; Epidemias i (3 livros), Epidemias ii (6 livros)iii (3 livros) e vi (8 livros); Dos humores (3 comentários); Sobre os alimentos (4 comentários); Predições (3 comentários); Da natureza do homem (2 comentários); Sobre a oficina do médico (3 comentários); Ares, águas e lugares (3 comentários sob o título Sobre as moradias, as águas, as estações e os países).

Além disso, com a intenção de demonstrar a autenticidade de certos textos hipocráticos, escreveu Sobre o regime nas doenças agudas segundo HipócratesExplicação de palavras raras ou GlossárioContra Lyco (crítica à passagem §I, 14 dos Aforismos: “os seres que crescem possuem mais calor inato”); Contra Juliano (o metódico); e, por fim, o pequeno texto O bom médico é também filósofo.

Dois tratados discutem Hipócrates e Platão: Sobre os elementos segundo Hipócrates e Platão Sobre a doutrina de Hipócrates e Platão (9 livros).

No Fraturas, Galeno descreveu o seu próprio método exegético: o principal objetivo do comentador é esclarecer aquilo que não está claro no texto, ou porque não está bem redigido ou porque o leitor não tem condições ou capacidade de compreendê-lo. Segundo o próprio Galeno, os comentários dirigiam-se a um público de nível médio com uma certa experiência, não para os neófitos e tampouco para os especialistas. Além disso, declara não ser tarefa do comentador provar se as coisas ditas são falsas ou verdadeiras, nem defender o texto das interpretações sofistas, como era usual na exegese da época. Para ele, a exegese não devia limitar-se unicamente à apresentação definitiva das concepções dos autores (cf. Smith, 2002, p. 125). Dessa forma, Galeno introduz nos seus comentários as suas próprias ideias buscando aquilo que será, a partir de então, feito por todos aqueles que buscavam conciliar o pensamento antigo com as novas descobertas anatômicas e as novas concepções filosóficas. Cada comentário era composto por duas partes principais, o texto de Hipócrates e o comentário de Galeno. Na maior parte das vezes, Galeno interpreta o pensamento contido nos tratados hipocráticos à luz de suas próprias concepções e, desde então, a sua contribuição para a difusão do pensamento hipocrático é marcada pela força de seu pensamento e de suas concepções particulares.

Galeno copiava o texto original de Hipócrates (lemmes) e, em seguida, fazia o comentário, que consistia em uma explicação das palavras raras ou das passagens mais difíceis e, ao mesmo tempo, na exposição da doutrina. Por exemplo, no comentário ao texto cirúrgico Fraturas, Galeno parafraseia o autor nas passagens consideradas obscuras, fornecendo informações anatômicas e fisiológicas que esclarecem os procedimentos cirúrgicos. Conservados em grego e em árabe, os comentários de Galeno chegaram à posteridade latina transmitindo um Hipócrates inteiramente construído a partir do seu próprio ponto de vista filosófico e médico, alinhado com o estoicismo e marcado por Platão e Aristóteles. Assim, Galeno é, ao mesmo tempo, o maior difusor da medicina e do pensamento de Hipócrates, bem como aquele que imprimiu uma nova leitura ao legado hipocrático que será, a partir de então, guia e orientação para a medicina até o século xviii.

Um exemplo curioso é fornecido por Jouanna (cf. 1992, p. 507) ao apresentar a contribuição das traduções de Hunayn ibn Isháq, médico árabe do século ix, para a transmissão do hipocratismo galênico. Ao verter os textos médicos hipocráticos para o siríaco e o árabe, Isháq utilizou os comentários de Galeno. Estes eram constituídos pela alternância das “palavras de Hipócrates” (usando a terminologia própria de Isháq) e dos comentários de Galeno às mesmas palavras. Na tradição árabe, os tratados hipocráticos serão recompilados extraindo-se as “palavras de Hipocrates” e mantendo-se apenas os comentários de Galeno. Esse será o Hipócrates conhecido a partir de então, quer no mundo árabe ou latino, até o século xv, quando médicos humanistas passam a exigir os textos originais gregos, livres de tradução e glosa.

Galeno absorve alguns elementos da filosofia platônica, retendo a ideia das três almas sediadas no fígado, no coração e no cérebro. No entanto, diferentemente de Platão e aproximando-se dos estóicos, com exceção da alma racional, duas almas são mortais. No Timeu, Platão concebe três almas: uma alma imortal racional alojada na cabeça, responsável pelo pensamento; uma alma mortal e de baixos instintos alojada no fígado, responsável pelas funções vegetativas, e uma alma mortal intermediária entre o fígado e a cabeça, alojada no coração, responsável pelos altos instintos. Essas almas controlariam o corpo que, por sua vez, é composto pelos quatro elementos, ar, fogo, terra e água, cada um dos quais representado por uma figura geométrica determinada. A alma racional, sediada na cabeça, e a alma mortal ou apetitiva, sediada no fígado, emitiriam ordens para o coração, considerado o centro que comanda o corpo, bem como sede do calor inato e, ao mesmo tempo, responsável por sua refrigeração. O sistema vascular, uma verdadeira rede de irrigação, permitiria que o sangue irrigasse o corpo, à maneira do fluxo e do refluxo do mar, nutrindo, aquecendo e animando. O sangue proviria dos alimentos e a saúde foi concebida como um duplo equilíbrio: entre os quatro elementos que compõem o corpo e entre o corpo e a alma. Platão parte das concepções biológicas contidas no CH, mas diferentemente da orientação naturalista da maior parte dos autores do CH, Platão introduz a ideia das almas divinas.

De Aristóteles, Galeno reteve aspectos do seu hilemorfismo, tais como a predominância da forma sobre a matéria. Mas, para Galeno, a alma não era concebida como princípio motor do corpo, e sim como o resultado último da matéria corporal. Em Aristóteles (cf. Ross, 1971 [1923]; Daremberg, 1994; Preus, 1975), os animais possuem uma alma, considerada o princípio motor que anima o ser vivo e fornece o seu movimento. Aristóteles concebeu três almas ou, pelo menos, três faculdades distintas da alma: a alma nutritiva, própria dos animais e vegetais, responsável pela vida vegetativa (fisiologia e geração animal); a alma sensitiva, própria dos animais, responsável pela vida de relação, sensibilidade, motricidade e desejo; e a alma racional, própria do homem, responsável pelo pensamento. Como para Aristóteles todo ser definido é constituído por matéria forma, inseparáveis uma da outra, a forma dos seres vivos é concebida como a reunião dos aspectos morfológicos e qualitativos da matéria viva. Uma vez que a alma é a causa formal do corpo, isto é, a forma adulta a ser atingida por meio de seu desenvolvimento, ela é também a sua causa final. Além disso, sendo a causa formal e final do ser adulto completo, a alma é também a forma da saúde ou, pelo menos, do estado ideal do corpo, que Aristóteles, seguindo a orientação da medicina hipocrática, concebe como o equilíbrio dos elementos e, consequentemente, dos humores. Além disso, a alma ligada ao corpo é, ao mesmo tempo, forma princípio de movimento. Sediada no coração, ela anima o corpo por meio do calor e do pneuma. O pneuma, ar vivificante respirado pelo nariz e pela pele, refrigera o corpo e fornece-lhe vida.

A fisiologia básica de Aristóteles reduz-se à nutrição e à refrigeração. Na nutrição, a cocção transforma o alimento em sangue com a ajuda do fígado e do calor natural do corpo; o sangue nutre e recompõe os tecidos compondo a matéria corporal. Esse trabalho de irrigação é feito através dos vasos do corpo. O cérebro é um órgão frio e sua função é refrigerar o sangue quente que sai do coração e sobe ao cérebro na forma de exalação. No cérebro, os vapores serão resfriados e condensados, descendo para o corpo; com isso, o calor do sangue é moderado. Discordando de Platão e Hipócrates, Aristóteles considera que o cérebro não é a sede do pensamento e da sensibilidade, papel reservado ao coração, onde a alma está localizada. A função do pulmão, assim como em Platão e no CH, é dupla: moderar o calor do coração e alimentar a chama do fogo para que não se apague.

Dos estóicos, Galeno conserva a ideia de uma providência onisciente e racional que regula o mundo, criando, dessa maneira, uma ordem preestabelecida. A conciliação do finalismo aristotélico e do determinismo providencial dos estoicos permitiu a Galeno elaborar uma teoria que buscou compreender o que cada parte do corpo é (historia) e qual é a sua função (usus utilitas) no sistema fisiológico como um todo (Galeno, 1979, 1968). Cada parte do corpo é um instrumento, uma ferramenta independente que possui uma utilidade bem definida, a qual justifica a sua existência e a sua estrutura (anatômica), chamada historia. Cada órgão é feito para cumprir uma função determinada (usus) que tem uma utilidade ou propósito particular (utilitas). O corpo é posto em movimento graças a um conjunto de propriedades providenciais, as faculdades naturais. Verdadeiros princípios vitais (e não puramente mecânicos) dirigem as ações corporais. Assim, a famosa seqüência historia-actio-usus-utilitas completa-se com a explicitação da ação (actio) das faculdades naturais. Fusão entre as dynameis da fisiologia hipocrática e o estoicismo, as faculdades naturais são identificadas com a ação “simpática” (sympateia) que reúne as partes do corpo, os elementos, os humores, os alimentos e os órgãos. O corpo é uma máquina que cumpre funções graças às faculdades naturais. Estas, por sua vez, são de dois tipos: aquelas que agem sobre todo o corpo e aquelas que são particulares a cada órgão. Podem ser atrativas, retentoras, expulsivas, sangüificadoras, neurificadoras etc. E cada uma dessas faculdades pode compreender outras, como a faculdade nutritiva, que é, ao mesmo tempo, alteradora, aglutinadora, retentora, aumentativa etc.

Assim, cada processo fisiológico tem uma faculdade natural que o explica. Em outras palavras, a faculdade natural é uma explicação da capacidade das partes. Ela substitui o calor e a alma nutritiva de Aristóteles na explicação do funcionamento do corpo, ocupando o lugar de um princípio ativo de transformação. Há aqui uma retomada da filosofia médica hipocrática, pois a faculdade natural nada tem a ver com a alma das concepções platônica e aristotélica. No entanto, como vimos, no CH não há uma elaboração refinada na explicação da ação e do movimento das partes, pois que ela se resume à idéia de atração e simpatia. Assim, pode-se pensar que o conceito de faculdade natural é uma das maneiras pela qual Galeno, sem se afastar da fisiologia hipocrática, fornece uma explicação mais elaborada do funcionamento do corpo.

Além das faculdades naturais, Galeno postula a existência de almas ou espíritos, princípios materiais produzidos no corpo. De um modo geral, a fisiologia de Galeno é determinada pela necessidade de produção desses espíritos naturais, vitais e animais (psíquicos), respectivamente responsáveis pela nutrição, refrigeração e vivificação corporal e pela sensibilidade, movimento e pensamento. O fígado é arché das veias e principal órgão no processo de sangüificação. O coração é fonte e sede do calor inato que, resfriado pelo ar que penetra nos pulmões, espalha-se pelas artérias do corpo. O cérebro é arché dos nervos e o principal órgão da sensibilidade, do movimento e do pensamento, onde são formados os espíritos animais.

É na patologia e na terapêutica de Galeno que se pode perceber claramente uma restauração da autoridade hipocrática. Embora não retenha a idéia de uma natura medicatrix, tão cara aos hipocráticos, e, nas explicações das doenças, a teoria humoral ocupe um espaço menor, contrabalançado pela consideração das lesões orgânicas locais, Galeno reproduz o esquema das qualidades e dos temperamentos já sugeridos no CH seis séculos antes, aperfeiçoando-o. No entanto, Galeno sofistica a teoria humoral e introduz uma novidade. Ao comentar o livro iii dos Aforismos, que reúne a discussão sobre as estações do ano e as idades do homem, Galeno aproveita para fazer derivar a sua particular teoria dos temperamentos (kraseis). Classificando as doenças em oito tipos de discrasias, das quais quatro são discrasias simples, que podem ocorrer numa única das quatro qualidades, e quatro são discrasias compostas que podem ocorrer entre duas qualidades ao mesmo tempo, por exemplo, seco-quente, seco-frio, úmido-quente e úmido-frio. A terapêutica galênica manteve a importância e a supremacia dos regimes de vida (dietas) praticados pelos médicos hipocráticos, entendendo que a qualidade dos alimentos deveria ser contrária à doença ou favorecer os humores. Os medicamentos seguiram a mesma lógica, sendo utilizados a partir de suas qualidades aquecedoras, refrigeradoras, secativas, hidratantes, sangüíneas, pituitosas, biliosas e outras.

A transmissão da interpretação galênica do CH pode ser verificada no conteúdo dos manuais e dos “catecismos médicos” utilizados amplamente a partir do século ix d.C., tais como o Isagoge ou Líber Isagogarum de Joahnitius (Hunain ibn Isháq) (cf. Jacquart & Micheau, 1996, p. 45-54), uma introdução ao Tegni de Galeno, que invariavelmente abria os florilegia Articellae Ars medicina e o Cântico ou Poema à medicina de Avicena (cf. Avicena, 1956), ambos leituras obrigatórias nas escolas médicas do mundo oriental e ocidental. Neles, uma síntese da medicina galênica é ensinada com recurso à memorização. O Isagoge, na forma de perguntas e respostas, o Poema à medicina de Avicena, em versos. O conteúdo de tais manuais atesta a transmissão do legado hipocrático via Galeno, pois seus autores reproduzem, como é, por exemplo, o caso de Isháq, o sistema galênico sem qualquer intervenção, sistema este construído a partir dos comentários aos seus predecessores, entre eles os autores do CH. Essa literatura foi utilizada nas universidades ocidentais por sete séculos, do ix ao xvii, constituindo-se no manual de medicina mais editado e copiado pelos estudantes e, com isso, o veículo mais importante na transmissão do legado hipocrático-galênico.

Galeno também classificou os ossos entre os que apresentam concavidades medulares e aqueles nos quais estas estão ausentes. Relatou a estrutura da caixa que compõe o crânio e descreveu o sistema muscular. O médico igualmente investigou os nervos cranianos e comprovou, através da prática, que o rim é um órgão que secreta urina. Ele morreu por volta do ano 200, possivelmente na Sicília.

Após esse amplo compilado de informações, retirados de diversas bibliografias, com intuito de facilitar a pesquisa do acadêmico de medicina no âmbito da História de Medicina, podemos concluir que Galeno de Pérgamo é um dos maiores nomes da medicina, com contribuição fundamental para o desenvolvimento desta ciência.

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http://www.ff.ul.pt/paginas/jpsdias/Farmacia-e-Historia/node28.html

 

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