A SERPENTE COMO UM SÍMBOLO E UMA EXPLICAÇÃO ALTERNATIVA AOS ARQUÉTIPOS

 

            Há várias simbologias adotadas por povos do mundo e que são semelhantes entre si em alguns aspectos, a exemplo de observar o céu como local divino, criar mitos para a morte, produzir estruturas arquitetônicas, usar cajados, bastões, cetros, árvores da vida e animais. Neste texto, pretendo abordar um pouco sobre a simbologia da serpente em várias culturas e questionar os conceitos de arquétipo sugeridos pelo psicanalista Carl Jung.

            A serpente sempre foi bastante usada como representação da medicina, gerando o que se chama de ofiolatria. Conforme as aulas se passam, percebo uma citação peculiar a esse animal em cada uma delas, e não é para tanto: o próprio símbolo da medicina, o bastão de Asclépio, é representado com uma serpente ao seu redor.

            A primeira menção à serpente como uma simbologia em registro histórico, talvez, seja na Epopeia de Gilgamesh, encontrada na biblioteca de Nínive, no palácio de Assurbanipal, que também é a primeira a ser escrita, sendo registrada numa placa de argila com escrita cuneiforme. Nela, resumidamente, conta-se a história de Gilgamesh, um rei autoritário de cidade de Uruk que, para ser controlado, recebeu Enkidu, por ordem da deusa Ishtar. Enkidu deveria duelar com Gilgamesh e derrotá-lo, no entanto, eles viraram amigos. Depois de muito tempo juntos, eles acabaram por provocar a ira dos deuses, e Enkidu morreu. Temendo a morte, Gilgamesh procura um sábio e pergunta qual o segredo da imortalidade, recebendo a resposta de que tal pode ser alcançada ao comer uma planta que se encontra no fundo do mar. Gilgamesh, então, depois de uma longa jornada, acha a planta e inicia uma caminhada até a sua cidade, Uruk. No meio do caminho, porém, decide beber água e uma serpente come a planta, tornando-se imortal. A partir daí, começa a ser cultuada pelos mesopotâmicos como um símbolo divino, imortal, e muitos de seus deuses adquirem um quimerismo serpente-humano, a exemplo de Ningshizida – o “senhor da boa árvore” ou “senhor da árvore da vida”, bastante reverenciado por Gudeia, famoso príncipe da cidade de Lagash. Isso não é muito diferente de outras culturas, que também cultuavam a serpente como símbolo de bem-aventurança, fertilidade, bons tempos, etc..

            Ainda no Oriente Médio, foram encontradas várias esculturas de bronze em locais onde, possivelmente, alojou-se a civilização canaanita.

            Também há exemplos do culto à serpente na cultura grega, através dos símbolos do caduceu (originalmente, representando o comércio) e do bastão de Asclépio (originalmente, representando a medicina), tendo o segundo sido romanizado para o termo “bastão de Esculápio”. Alguns creem que esses símbolos possam ter se originado da mitologia mesopotâmica referente à Ningshizida, cujo símbolo também incluía serpentes enroladas em um bastão.

            Ademais, serpente é utilizada como um mito na civilização egípcia, por meio de Uraeus, símbolo de proteção do país, dos deuses e dos faraós, de Renenut, uma deusa frequentemente relatada como uma mulher com cabeça de cobra associada à vida eterna, e de Ouroboros, uma serpente que morde a própria cauda, formando um círculo, e é usada como um símbolo da ciclicidade do mundo.

            Em algumas tribos da América do Sul, existe a crença em uma serpente criadora de todas as criaturas aquáticas, a Yakunama, que habita no Rio Amazonas.

            No hinduísmo, há as Nagas, grupo de divindades semelhantes às serpentes que fazem parte da mitologia. Dessas Nagas, uma importante a ser citadas são a serpente Vasuki, que se encontra enrolada no pescoço de Shiva, deus da destruição, criação, regeneração, arte, meditação e yoga. Usar a serpente como ornamento significa que ele dominou a morte e, portanto, é imortal. Ainda, é possível encontrá-la dando três voltas no seu pescoço, o que significa que ele dominou os três tempos: passado, presente e futuro. Crê-se que é a serpente Vasuki que desperta e ascende sobre os sete chakras por toda a coluna vertebral.

            A outra serpente do hinduísmo bastante importante é a SheshaNaga, rainha de todas as Nagas, e que está sobre o domínio de Vishnu, deus da preservação e proteção. Segundo a religião, Vishnu é visto usando a cobra como um repouso.

            Acredita-se que, no rio Mekong, em determinado momento do ano, bolas de fogos são lançadas ao céu pelas divindades Naga.

            Na Austrália, o mito da criação dos aborígenes é associado com a Serpente-Arco-Íris.

            Na mesoamérica, também há uma serpente sagrada: a Quetzalcoatl, que é muitas vezes descrita como mordendo sua própria cauda (incrível sua semelhança com a serpente Ouroboros). Também chamada de EhecatlTlahuizcalpantecuhtli ou Kukulkan, sua existência era associada ao Cinturão de Gould, faixa estrelada deixada pela porção visível da Via Láctea à noite.

            A Quetzalcoatl tem um templo em sua homenagem, feito pelos maias, que possui um número de degraus correspondente ao número de dias do ano, o que indica a sua precisão na previsão de fenômenos terrestres (tais quais as mudanças de estações), visto que era uma sociedade inteiramente agrícola. O templo foi feito em forma de pirâmide e foi perfeitamente projetado a 20° do Norte, de modo que, a cada equinócio (seja de Primavera ou Outono), rastros de luz são formados na escadaria em um aspecto serpentino durante o pôr-do-sol. Com o passar do tempo, as luzes projetam-se sobre a cabeça da “serpente emplumada” que se encontra na base da pirâmide e, quando se encontra lá, isso significa que o deus Quetzalcoatl desceu dos céus à terra para promover a bem-aventurança.

            Entretanto, não é sempre que a serpente é vista como bom símbolo. Um bom exemplo é a mitologia nórdica, que criou o mito de Níðhǫggr, um dragão (ou cobra, dependendo da fonte) que se alimentava das raízes de Yggdrasil, a “árvore da vida” nórdica. Além disso, existe Jörmungandr, uma serpente que morde sua própria cauda (assim como a Quetzalcoatl e o Ouroboros) associada com o Ragnarök, basicamente, o apocalipse nórdico. Também há a lenda do Boitatá, que não faz parte exatamente de uma mitologia, mas sim de uma cultura colonial, mas não deixa de ser uma representação simbólica. O Boitatá foi uma explicação dada pelos portugueses ao fenômeno de foto-fátuo e é geralmente associado a más consequências a quem se encontrar na floresta com ele. Por fim e mais famoso, temos a serpente do Jardim do Éden, o animal mais astuto, porém, enganador e trapaceador, que induziu Eva a comer o fruto proibido.

Uma explicação alternativa à teoria dos arquétipos

            O território árabe consiste em uma faixa de terra que inclui o norte da África e o Oriente Médio.  As terras são banhadas, em grande parte, pelo mar mediterrâneo e entram em contato com três continentes diferentes (Europa, Ásia e África). O território foi o berço de diversas civilizações, que se estabeleceram em locais ao longo do chamado “Crescente Fértil”, área que engloba os rios Nilo, Tigre e Eufrates.

            Por conta disso, as tribos de lá, que antes eram nômades, passaram a praticar a agricultura e se estabeleceram permanentemente no local, embora ainda existissem povos nômades. Tal estagnação gerou o início da construção de cidades, de civilizações, de uma cultura propriamente dita. Surgem as tentativas de explicar o mundo, o que, talvez, explique a formação de três religiões monoteístas, que, juntas, possuem a maior quantidade de adeptos no mundo atual: judaísmo, cristianismo e islamismo.

            O território, ainda, entra em contato com diversas outras faixas de Terra: ao Oeste, a África; ao Leste, a Ásia e; ao Norte, a Europa. Isso facilitou a migração dos primeiros seres humanos para a Europa e para a Ásia, o que é bem explicado por estudos antropológicos da evolução da humanidade.

            É ululante, portanto, que a região possui uma riqueza da qual qualquer imperador gostaria de usufruir. Isso, talvez, explique por que vários povos dominaram completamente ou parcialmente essa região. Ela já esteve nas mãos do Reino Egípcio, Império Hitita, Reino de Israel, Império Assírio, Império Babilônico Império Persa, Império Macedônico, Império Romano, Império Bizantino (que foi uma continuação do Império Romano Oriental após a decadência do Império Romano como um todo), Império Sassânida (que também eram persas), Império Seljucídio, entre outros, o que pode  ser mais aprofundado no vídeo do Maps of War: http://www.mapsofwar.com/ind/imperial-history.html. Além disso, o cenário do Oriente Médio foi palco das famosas cruzadas e do famigerado Império de Genghis Khan.

            Não há palavras para designar a historiografia da região, que promoveu insolitamente o contato entre povos que carregavam os primeiros registros culturais que a humanidade já presenciou. Destarte, percebe-se que, provavelmente, aí começa-se a troca de simbologias, ritos e mitos, que, em sua semelhança, apresentam-se em diversas culturas. É aí, então, que, talvez, a medicina comece a tomar sua primeira representatividade e a herdá-la para as demais culturas.

            É possível observar, também, que quanto mais próximas geograficamente as culturas são, maior é a chance de terem símbolos semelhantes, o que é bem explicado pela possível influência do símbolo de Ningishzida nos bastões de Caduceu e Asclépio e na proximidade de relações da imortalidade (surgida com o mito de Gilgamesh) e as divindades egípcia relacionadas à serpente. Essa relação de proximidade geográfica e representação cultural fez-me indagar se a conceituação dos arquétipos de Carl Jung, segundo a qual símbolos e mitos são provenientes de constituintes inconscientes adquiridos pela Evolução que se manifestam de diferentes formas e que provém do âmbito intrínseco do homem, é o suficiente para explicar a semelhança dos símbolos e mitos adotados pelos povos. Além disso, há algumas culturas isoladas que promovem um olhar negativo sobre a serpente, como é o caso de alguns indígenas brasileiros, do cristianismo no livro Gênesis e da mitologia nórdica.

            Logo, observe você, leitor, que o presente artigo almeja promover uma discussão dos símbolos não como uma manifestação pura dos arquétipos, conceituação iniciada pelo psicanalista Carl Jung, mas sim de uma explicação mais naturalista, aliada às ciências humanas e naturais, de modo a propor uma manifestação alternativa ao pensador por meio de argumentos antropológicos e evolutivos. Em suma, busca-se explicar as semelhanças culturais no argumento da dissociação geográfica dos povos, todos eles provenientes de único povo e que, ao contrário do proposto por Jung, denotam uma causa extrínseca para isso, independente do inconsciente humano. Da mesma forma que a Evolução das Espécies ocorreria com base na mudança da frequência de genes em uma população, mas haveria a manutenção de alguns genes, presentes em todos os indivíduos, a Evolução das Culturas ocorreria com base nas mudanças que tais sofreram conforme o tempo em função do espalhamento dos povos pelo mundo, mantendo uma simbologia tratada como ancestral, sendo essa adaptada de acordo com o povo.

Josikwylkson Costa Brito, Terceiro Período FCM – CG.

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s